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O DHT e a Alopecia Androgenética: um protagonismo que se dilui com o tempo

O diidrotestosterona (DHT) é, sem dúvida, o personagem central na gênese da alopecia androgenética (AGA). Sua ação sobre os receptores androgênicos da papila dérmica, mediando a miniaturização folicular progressiva em indivíduos geneticamente predispostos, é um dos mecanismos mais bem estabelecidos da tricologia. Não há razão científica para questionar isso.

O que tenho observado clinicamente — e o que a literatura mais recente começa a sustentar — é que esse protagonismo não é permanente. Ele se dilui com o tempo.

Em revisão que publiquei como coautor em 2019 na Dermatologic Therapy¹, já argumentávamos que a fisiopatologia da AGA transcende os androgênios e os antiandrógenos, incorporando inflamação crônica, estresse oxidativo e fatores ambientais como determinantes relevantes da progressão da doença. O próprio título do artigo — “Going beyond androgens and anti-androgens” — sintetizava essa inquietação.

Os dados que sustentam essa perspectiva são objetivos. Os níveis circulantes de androgênios declinam com a idade, mas a AGA progride. A finasterida, o inibidor da 5α-redutase mais estudado da história, apresenta eficácia limitada em estágios avançados e não reverte a miniaturização já consolidada. Isso, por si só, indica que mecanismos independentes do DHT passam a comandar a perpetuação da doença.

Revisão publicada em 2023 na Dermatology² demonstrou que células senescentes acumulam-se progressivamente nos folículos de pacientes com AGA — tanto nas células da papila dérmica (DPCs) quanto nas células-tronco foliculares (HFSCs) — e que esse processo opera de forma crescentemente autônoma em relação aos níveis androgênicos. O estresse oxidativo, a disfunção mitocondrial e o fenótipo secretório associado à senescência (SASP) emergem como perpetuadores da miniaturização que não respondem ao bloqueio do DHT.

Trabalho publicado em 2024 no Benha Journal of Applied Sciences³ reforça essa conexão entre AGA e envelhecimento, apontando NAD⁺ e elastina como marcadores de um processo sistêmico de envelhecimento acelerado nos pacientes afetados — mecanismos completamente alheios à via androgênica clássica.

O Dr. Ralf Paus, um dos pesquisadores mais relevantes e prolíficos da biologia do folículo piloso no mundo contemporâneo, sistematizou essa perspectiva de forma abrangente em 2024 na Physiological Reviews⁴, em artigo que examina fronteiras que vão muito além da via AR/DHT: imunidade folicular, senescência celular, microbioma, ciclo folicular e estresse oxidativo.

A conclusão que os dados permitem — sem extrapolação — é a seguinte: o DHT é um gatilho essencial na AGA, especialmente nos estágios iniciais e em pacientes mais jovens. Mas com o envelhecimento, a doença recruta outros mecanismos que passam a sustentá-la de forma independente. Tratar apenas o DHT em um paciente com AGA avançada é como apagar o fósforo depois que o incêndio já tomou conta da casa.

Referências

1. Katzer T, Leite Junior AC, Beck R, da Silva C. Physiopathology and current treatments of androgenetic alopecia: Going beyond androgens and anti-androgens. Dermatologic Therapy. 2019;32(5):e13059.

2. Deng L, Mirza FN, Bhatt DL, et al. Cellular senescence: Ageing and androgenetic alopecia. Dermatology. 2023;239(1):1–12.

3. Maghawry M, et al. A link between androgenetic alopecia and aging. Benha Journal of Applied Sciences. 2024;9(1):1–11.

4. Paus R, et al. Beyond the androgen horizon: New frontiers in androgenetic alopecia research and therapy. Physiological Reviews. 2024;104(2):723–873.

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