
No domingo, 4 de outubro de 2026, participei, em Varsóvia, do XXIV Congresso Internacional de Medicina Estética e Anti-Aging, promovido pela Sociedade Polonesa de Medicina Estética e Anti-Aging (PTMEiAA). O evento reuniu especialistas de diferentes áreas da medicina e dedicou uma sessão científica à saúde capilar, intitulada “Hair & Scalp Medicine — From Diagnosis to Regenerative Strategies” (Medicina Capilar e do Couro Cabeludo — Do Diagnóstico às Estratégias Regenerativas).
O painel apresentou uma visão abrangente da medicina capilar contemporânea, reunindo discussões sobre diagnóstico, alopecias, terapias regenerativas, inflamação do couro cabeludo, alterações hormonais, oncologia e suplementação baseada em evidências científicas.
Diagnóstico preciso e tratamentos individualizados: Natalie Garcia Bartels, da Charité de Berlim, abordou a importância de uma avaliação criteriosa dos pacientes com queda capilar, considerando as diferentes causas das alopecias e a necessidade de individualizar os tratamentos. Esse é um dos princípios fundamentais da medicina capilar: manifestações semelhantes podem ter mecanismos completamente diferentes e, consequentemente, exigir abordagens terapêuticas distintas.

Alopecia androgenética masculina e feminina: Aleksandra Szlachcic trouxe uma questão importante: estamos diante de duas manifestações de uma mesma doença ou de condições com diferenças fisiopatológicas relevantes? Embora homens e mulheres compartilhem mecanismos relacionados à miniaturização folicular, existem particularidades hormonais, genéticas e clínicas que precisam ser consideradas na avaliação e no tratamento.
Receptores androgênicos, exossomos biomiméticos e terapias regenerativas: Andrew R. Christie-Schwarz discutiu estratégias voltadas à modulação da atividade androgênica e ao uso de tecnologias biomiméticas. O interesse por essas abordagens demonstra o avanço das pesquisas sobre sinalização celular e microambiente folicular. Entretanto, é fundamental distinguir resultados experimentais promissores de benefícios clínicos efetivamente comprovados, especialmente quando falamos de exossomos e novas tecnologias regenerativas.
Reativação folicular e protocolos terapêuticos combinados: apresentações de Magdalena Wawrzynkiewicz e Magda Barnaś abordaram sistemas de tratamento e protocolos de cuidado do couro cabeludo. Essas propostas refletem uma tendência de integrar diferentes recursos terapêuticos, mas também reforçam a necessidade de avaliar a contribuição real de cada intervenção, sua segurança e a qualidade das evidências disponíveis.
Inflamação do couro cabeludo, caspa e psoríase: Ewelina Szendzielorz discutiu abordagens para condições inflamatórias frequentes na prática tricológica. A importância desse assunto está no reconhecimento de que alterações da barreira cutânea, descamação, prurido e inflamação exigem diagnóstico adequado. O controle dos sintomas e os cuidados cosméticos podem contribuir para o acompanhamento, mas não substituem o tratamento específico das doenças dermatológicas.
Menopausa e alterações do folículo piloso: Anna Mackojć abordou as modificações que ocorrem no couro cabeludo e nos folículos pilosos durante a transição menopausal. As mudanças hormonais podem influenciar a densidade, o ciclo capilar e as características dos fios, mas precisam ser interpretadas em conjunto com predisposição genética, envelhecimento, condições metabólicas e outros fatores associados.
Tricologia oncológica: Claudia Musiał apresentou um tema que considero particularmente importante pela necessidade de integrar conhecimento médico, segurança terapêutica e qualidade de vida. A perda capilar associada aos tratamentos oncológicos envolve mecanismos biológicos específicos e pode produzir repercussões emocionais significativas. O acompanhamento desses pacientes exige cuidados individualizados e colaboração com a equipe responsável pelo tratamento do câncer.
Suplementação baseada em evidências científicas na tricologia: tive a oportunidade de apresentar a palestra “Evidence-based Supplementation in Trichology: Current Perspectives and Clinical Practice”, discutindo a importância de fundamentar a suplementação em critérios clínicos, nutricionais e científicos. A utilização de vitaminas, minerais e outros compostos precisa considerar as necessidades individuais, a existência de deficiências e a qualidade das evidências sobre seus benefícios. Suplementar não significa necessariamente tratar, e a prescrição indiscriminada pode representar tanto desperdício quanto risco ao paciente.
Microbioma, alopecias e suplementação: Claudia Musiał também abordou as possíveis relações entre microbioma, saúde folicular e intervenções nutricionais. Trata-se de um campo de investigação em crescimento, que procura compreender como as comunidades microbianas e suas interações com o organismo podem participar de processos inflamatórios e metabólicos. Embora existam perspectivas interessantes, ainda precisamos de estudos que demonstrem quais intervenções produzem benefícios clínicos consistentes.
O que considero especialmente relevante nesse painel foi a aproximação entre a medicina capilar tradicional e as novas estratégias de investigação e tratamento. De um lado, tivemos discussões sobre diagnóstico, alopecia androgenética, alterações hormonais e doenças inflamatórias. De outro, tecnologias regenerativas, sinalização celular, microbioma e protocolos terapêuticos que procuram ampliar as possibilidades de cuidado.
Essa diversidade mostra que o futuro da medicina capilar depende tanto do aprofundamento do conhecimento sobre a biologia do folículo piloso quanto da capacidade de avaliar criticamente as novas propostas terapêuticas.
Também considero importante destacar que a presença de um painel especificamente dedicado aos cabelos e ao couro cabeludo em um congresso internacional de medicina estética e anti-aging demonstra o reconhecimento crescente da saúde capilar como parte relevante da prática médica interdisciplinar.
Participar dessa programação e compartilhar minha experiência com suplementação baseada em evidências foi uma oportunidade de contribuir para uma discussão que considero indispensável: a medicina capilar precisa continuar avançando, mas esse avanço deve ser acompanhado de rigor científico, responsabilidade terapêutica e atenção às necessidades individuais de cada paciente.


