
Jovens de 18 a 25 anos chegam ao consultório de tricologia cada vez mais cedo. Ainda não existe um estudo que compare gerações com o mesmo método, então ninguém sabe ao certo se a Geração Z perde mais cabelo do que os pais perderam na mesma idade. Sabemos, porém, que vários fatores muito presentes na rotina dessa geração cobram caro do folículo. Conhecer esses fatores é o primeiro passo para proteger o cabelo.
1. Genética
A alopecia androgenética é a causa mais comum de rarefação progressiva em homens e mulheres jovens. Ela depende da herança familiar e da sensibilidade do folículo aos andrógenos, e pode começar no fim da adolescência, com entradas mais altas, coroa mais aberta ou repartição mais larga.
O que fazer: quem tem pais, avós ou tios com calvície deve buscar avaliação aos primeiros sinais. Essa forma de queda responde melhor quanto antes o tratamento começa.
2. Cigarro eletrônico
O vape se tornou o principal produto de nicotina entre jovens brasileiros. Um levantamento da Unifesp, com dados de 2022 a 2024, mostrou que um em cada nove adolescentes usa o dispositivo. Entre os jovens, os usuários de vape já somam cinco vezes os fumantes de cigarro comum, mesmo com a venda proibida pela Anvisa.
A relação entre tabagismo e calvície está bem documentada. Uma metanálise publicada em 2024 encontrou chance 82% maior de alopecia androgenética em homens que fumam ou já fumaram, além de maior chance de progressão para graus mais avançados. Estudos específicos sobre vape e cabelo ainda são escassos, e o principal agente é o mesmo nos dois casos: a nicotina.
A nicotina chega ao folículo por vários caminhos. Ela contrai os vasos da derme e reduz a oferta de oxigênio e nutrientes ao bulbo. Aumenta o estresse oxidativo e a inflamação ao redor do folículo. Atua como estimulante, encurtando e fragmentando o sono, e reduz o apetite, o que agrava a falta de proteína e micronutrientes. O formato do vape favorece o uso contínuo, em pequenas tragadas ao longo do dia, com sais de nicotina que tornam doses altas fáceis de inalar. Por isso o vape amplia o peso de quase todos os outros fatores desta lista.
O que fazer: tratar a dependência de nicotina como parte do cuidado com o cabelo e buscar apoio profissional para parar.
3. Estresse contínuo
Pesquisadores de Harvard mostraram em camundongos que o hormônio do estresse bloqueia o sinal que desperta as células tronco do folículo, prolongando a fase de repouso. No consultório, provas, pressão profissional e crises emocionais aparecem com frequência na história de quem sofre um eflúvio.
O que fazer: criar uma válvula diária para o estresse, com atividade física, pausas reais e acompanhamento psicológico quando necessário.
4. Sono irregular
O folículo tem relógio biológico próprio e acompanha o ritmo do corpo. Dormir de madrugada durante a semana e compensar no fim de semana desorganiza esse ritmo e soma mais um fator de estresse fisiológico.
O que fazer: manter horários regulares para dormir e acordar, inclusive nos fins de semana, e afastar a tela da cama.
5. Alimentação baseada em ultraprocessados
Um estudo alemão com calouros universitários encontrou 49% das calorias diárias vindas de ultraprocessados, com ingestão de ferro, zinco e vitamina B12 abaixo do recomendado. No Brasil, um trabalho com universitários da Unifesp chegou a 41%. O fio é um tecido de alto custo para o organismo, e a falta de proteína e micronutrientes aparece nele.
O que fazer: incluir proteína de qualidade em todas as refeições principais e dosar ferritina, zinco e B12 antes de qualquer suplemento.
6. Dietas restritivas e emagrecimento rápido
A perda de peso acelerada é um dos gatilhos mais conhecidos do eflúvio telógeno. Isso vale para dietas muito restritivas e também para o emagrecimento com medicamentos agonistas de GLP1, cada vez mais usados por jovens.
O que fazer: emagrecer de forma gradual, com acompanhamento profissional e oferta adequada de proteína.
7. Penteados que puxam
Coque alto, rabo de cavalo apertado, tranças e extensões tracionam sempre os mesmos folículos, principalmente na linha frontal e nas têmporas. Com o tempo, surge a alopecia de tração. Um sinal precoce é a franja de fios curtos que resistem na borda, com uma área mais rala logo atrás.
O que fazer: alternar penteados, preferir dias com o cabelo solto e dormir sem prender os fios.
8. Alterações hormonais
A síndrome que conhecíamos como SOP ganhou em 2026 um novo nome internacional: PMOS, sigla em inglês para síndrome ovariana metabólica poliendócrina. A mudança reflete o que a clínica já via, uma condição hormonal e metabólica que vai muito além dos ovários. O número de diagnósticos em adolescentes cresceu, em boa parte porque os médicos passaram a reconhecer a síndrome mais cedo. Ciclos irregulares, acne persistente e aumento de pelos, somados à rarefação, pedem investigação.
O que fazer: buscar avaliação endocrinológica e tricológica em conjunto.
A regra dos três meses
O cabelo que cai hoje costuma registrar o que aconteceu dois a três meses antes. Uma febre, uma dieta, um término ou uma temporada de provas empurram muitos folículos para o repouso ao mesmo tempo, e a queda aparece semanas depois. Olhar para trás ajuda a entender o eflúvio, e o diagnóstico definitivo depende do exame do couro cabeludo.
Quando procurar avaliação
- Queda intensa que persiste por mais de seis meses.
- Repartição que se alarga ou entradas que avançam.
- História familiar de calvície somada a fios mais finos.
- Queda associada a ciclos irregulares, acne persistente ou aumento de pelos.
- Áreas sem fios, coceira, dor ou descamação no couro cabeludo.
A consulta tricológica reúne história clínica, tricoscopia e exames laboratoriais dirigidos, e cada causa recebe uma conduta própria.
E na sua casa?
Você faz parte da Geração Z ou tem um filho nessa fase da vida? Talvez já tenha notado mais fios no ralo, a repartição mais aberta ou um cabelo que perdeu volume. Conte nos comentários o que mudou nos últimos meses. Se a dúvida persistir, agende uma avaliação: quanto mais cedo o folículo é examinado, mais caminhos de tratamento existem.
A raiz não mente.


