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A Influência da Mídia e da Informação na Saúde Capilar: Entre a Ciência e as Tendências

A internet se tornou o principal meio pelo qual milhões de pessoas buscam soluções para a queda capilar. Redes sociais como TikTok, Instagram e YouTube são verdadeiros termômetros de tendências sobre cuidados capilares, impulsionando desde tratamentos tradicionais até soluções naturais sem comprovação clínica suficiente. Dois artigos recentes analisam essa intersecção entre a busca por conhecimento e a qualidade da informação disseminada: um investiga a influência das redes sociais na percepção dos pacientes sobre tratamentos capilares naturais, enquanto o outro avalia o engajamento de profissionais da saúde na comunicação científica sobre alopecia nas plataformas digitais.

A primeira análise revela que muitas pessoas recorrem às redes sociais antes mesmo de procurar um especialista, expondo-se a conteúdos que, em grande parte, são produzidos por influenciadores e marcas, e não por profissionais médicos. Tratamentos naturais como óleo de alecrim, suco de cebola, água de arroz e gel de alho são amplamente divulgados como alternativas eficazes para estimular o crescimento capilar. Embora algumas dessas substâncias tenham propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes e vasodilatadoras, não há estudos suficientes que validem sua eficácia em comparação aos tratamentos padrão como minoxidil e finasterida.

O estudo aponta um exemplo interessante: um ensaio clínico comparando óleo de alecrim e minoxidil 2% mostrou resultados semelhantes na contagem de fios após seis meses de uso, sugerindo que o óleo pode ter um papel relevante na melhora da microcirculação capilar. No entanto, a ausência de mais pesquisas padronizadas e em larga escala não permite que se faça uma recomendação segura sobre seu uso como substituto do minoxidil. Além disso, a grande variação na composição, forma de aplicação e concentração dessas substâncias naturais levanta questões sobre a segurança do uso doméstico, já que reações adversas, como dermatites de contato e alergias, não são incomuns.

O segundo artigo revela que apenas uma pequena porcentagem dos conteúdos sobre alopecia nas redes sociais é produzida por dermatologistas e tricologistas. No TikTok, por exemplo, menos de 12% dos vídeos sobre queda de cabelo são feitos por profissionais de saúde, enquanto no Instagram essa participação sobe para 56%. O YouTube, por ser uma plataforma de vídeos mais longos e informativos, possui um equilíbrio maior, mas ainda assim há uma predominância de influenciadores e empresas promovendo produtos e tratamentos sem embasamento técnico.

Os conteúdos criados por médicos e pesquisadores, embora mais confiáveis, não recebem o mesmo engajamento dos conteúdos virais de influenciadores. No TikTok, por exemplo, vídeos feitos por não profissionais têm uma taxa de engajamento 16 vezes maior do que aqueles produzidos por especialistas. Isso levanta uma questão importante: a informação científica precisa ser melhor comunicada, sem perder sua credibilidade, mas se adaptando ao formato das redes sociais.

Ambos os estudos apontam uma preocupação legítima sobre a disseminação de desinformação e o risco de pacientes basearem suas escolhas em conteúdos sem embasamento adequado. Entretanto, há um ponto essencial que precisa ser discutido: a falta de evidências científicas sobre tratamentos naturais não significa necessariamente que eles sejam ineficazes. Muitas vezes, a ausência de estudos se deve à falta de interesse comercial e financiamento para pesquisar substâncias que não são passíveis de patenteamento, e não porque esses tratamentos são inviáveis ou inferiores.

Descartar abordagens naturais sem investigá-las adequadamente é um erro científico. A pesquisa médica historicamente favorece substâncias que possam gerar lucro por meio de patentes, o que faz com que muitas terapias naturais não sejam suficientemente estudadas e testadas. Em vez de simplesmente desconsiderar tais alternativas, a ciência deve se dedicar a explorá-las com o mesmo rigor metodológico aplicado aos tratamentos farmacológicos tradicionais.

Diante desse cenário, a solução passa por dois caminhos: educar melhor o público sobre os riscos de seguir informações não verificadas e estimular a comunidade científica a aprofundar suas investigações sobre produtos naturais para queda capilar. Convidar pesquisadores a desenvolver estudos de longo prazo sobre substâncias como alecrim, cafeína, quercetina e outros compostos vegetais pode ser uma forma de ampliar o conhecimento e oferecer mais alternativas seguras e eficazes para os pacientes.

Os profissionais da saúde também precisam ocupar mais espaço nas redes sociais, aprendendo a comunicar ciência de maneira acessível sem abrir mão da precisão técnica. A internet não pode ser dominada apenas por conteúdos comerciais e virais. Para que os pacientes tomem decisões informadas, é fundamental que médicos, tricologistas e pesquisadores se adaptem ao ambiente digital, combatendo mitos e contribuindo com informações embasadas.

Em resumo, a ciência precisa ampliar sua pesquisa sobre tratamentos naturais antes de desmerecê-los, e os profissionais da saúde precisam se posicionar melhor no ambiente digital para combater a desinformação. A informação de qualidade só terá impacto se chegar ao público certo da maneira certa.


Referências em NLM:

  1. Azhar AF. The Evidence Behind Topical Hair Loss Remedies on TikTok. Cutis. 2023;111:E25-E26.
  2. Gupta AK, Faour S, Wang T, Ravi SP, Talukder M. Pattern Hair Loss and Health Care Professionals: How Well Are We Connecting with Our Audience? J Cosmet Dermatol. 2024;23:2779–2784. doi:10.1111/jocd.16352.
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