Há quase três décadas atendendo pessoas com queda de cabelo, aprendi uma lição fundamental: calvície não é apenas um problema dermatológico. É uma experiência humana complexa, carregada de significados emocionais, sociais e identitários que transcendem qualquer protocolo de tratamento farmacológico.
Recentemente, tive acesso a um estudo publicado no British Journal of Health Psychology que me tocou profundamente. Não porque trouxesse uma nova droga milagrosa ou um protocolo revolucionário, mas porque fez algo raro na literatura médica: parou para OUVIR o que 990 pessoas com alopecia tinham a dizer sobre suas experiências vividas.
O Estudo que Ouviu Vozes
Hurrell e colaboradores conduziram uma metassíntese sistemática – um tipo de pesquisa que reúne e analisa estudos qualitativos anteriores – reunindo 22 estudos que exploraram, através de entrevistas, grupos focais e narrativas escritas, como homens e mulheres de 12 a 93 anos, de diferentes países e culturas, realmente vivenciam a alopecia.
O resultado? Cinco temas principais que ecoam profundamente com o que vejo diariamente no consultório, mas que raramente aparecem nos ensaios clínicos que testam medicamentos.
“Quem Sou Eu Sem Cabelo?”
O primeiro tema é devastador em sua simplicidade: a perda capilar afeta profundamente a identidade. Participantes descreveram a experiência como “profundamente traumática”, comparável a “perder um membro”. Não é exagero – é a expressão genuína de como se sentem.
O que me chamou atenção foi como identidades interseccionais intensificam esse sofrimento. Para pessoas LGBTQIA+, para pessoas negras, para indivíduos neurodivergentes, a alopecia adiciona mais uma camada de “diferença” que já carregam, amplificando sentimentos de marginalização. Um participante gay relatou: “quanto mais atraente você é, melhor na comunidade gay… isso destruiu completamente minha confiança… especialmente sendo gay, ter alopecia foi muito mais difícil.”
Quantas vezes, na pressa da consulta de 15 minutos, perguntamos sobre essas interseccionalidades? Quantas vezes realmente exploramos o que a perda capilar significa para AQUELA pessoa específica, com AQUELA história de vida específica?
A Jornada Difícil Rumo à Aceitação
O segundo tema documenta algo que testemunho constantemente: a aceitação não é linear. É um processo flutuante, influenciado pelo tempo, pela imprevisibilidade da condição, pelo suporte social. Como relatou um participante: “alguns dias eu realmente acredito que estou começando a aceitar isso… mas em outros sei que é mentira porque não estou aceitando.”
Interessantemente, o estudo sugere que a aceitação melhora com a idade – não necessariamente porque a pessoa se torna mais conformada, mas porque as pressões sociais sobre aparência tendem a diminuir para adultos mais velhos. É um dado que nos convida a refletir: estamos tratando apenas o folículo capilar ou também ajudando a pessoa a navegar as pressões socioculturais que tornam a calvície tão angustiante?
Como a Sociedade Ajuda e Atrapalha
O terceiro tema expõe a espada de dois gumes do contexto social. Quando há suporte genuíno – de parceiros que reforçam a atratividade, de amigos que facilitam participação social, de grupos de apoio onde experiências são compartilhadas – a jornada se torna mais leve. Relacionamentos verdadeiros até se fortalecem: “com os amigos reais que consegui através dessa experiência, nosso relacionamento se fortaleceu.”
Mas o estudo também documenta a crueldade: bullying, piadas, olhares, rejeição em processos seletivos de emprego, discriminação em relacionamentos afetivos. E aqui está um dado preocupante para nós, profissionais de saúde: a falta de consciência pública sobre alopecia contribui para vergonha e alienação. Muitas pessoas são confundidas com pacientes oncológicos, forçando-as a repetidamente explicar sua condição.
Para homens, há uma frustração adicional: a expectativa social de que “homem não deveria se importar tanto com aparência” invalida seu sofrimento legítimo.
A Complexidade de Esconder
O quarto tema me fez refletir sobre minha própria prática clínica. A ocultação da calvície – através de perucas, lenços, maquiagem para sobrancelhas, micropigmentação – é descrita como “ferramenta essencial de enfrentamento” por muitos. Permite que participem socialmente, sintam-se confiantes, experimentem diferentes visuais.
Mas também é fonte de conflito emocional intenso: preocupações com autenticidade, medo de que descubram a peruca, ansiedade sobre como reagirão se souberem. Alguns têm confidentes próximos; outros não contam para NINGUÉM, nem amigos íntimos: “uso peruca todos os dias e não conto pra ninguém… até minha melhor amiga não sabe.”
Existe também uma pressão implícita – “regras não escritas” – para seguir normas sociais de beleza. Para homens, usar peruca é frequentemente considerado inaceitável socialmente, empurrando-os para bonés e chapéus.
O que me questiono: ao oferecer soluções cosméticas (que são válidas e importantes!), estamos também criando espaço para que o paciente explore o que realmente QUER, livre de julgamento? Ou inconscientemente reforçamos a narrativa de que “esconder é necessário”?
Necessidades Não Atendidas no Sistema de Saúde
O quinto tema deveria nos envergonhar como classe médica. Participantes relataram consistentemente que profissionais de saúde:
- Priorizaram tratamento médico sobre impacto emocional
- Invalidaram respostas emocionais: “Foi dito pra eu usar peruca. ‘Afinal, é só seu orgulho que está ferido’, disse um médico”
- Ofereceram informação insuficiente sobre a condição, opções de tratamento, acesso a perucas
- Demonstraram conhecimento limitado sobre alopecia quando pacientes buscaram suporte psicológico
Houve atrasos em diagnóstico, consultas apressadas, falta de encaminhamento para suporte psicológico especializado. A narrativa geral? Sentimento de invalidação e abandono pelo sistema de saúde.
Isso dói ler. Porque reconheço que, mesmo com as melhores intenções, em sistemas sobrecarregados com consultas de 15 minutos e fila de espera de meses, é difícil oferecer o cuidado integral que essas pessoas merecem.
O Que Isso Muda na Prática Clínica?
Este estudo não traz uma nova droga. Não mostra eficácia de um novo laser. Não apresenta técnica cirúrgica inovadora. Mas traz algo talvez mais importante: evidência sistemática de que tratamento de alopecia não pode ser apenas farmacológico.
Os autores propõem algumas direções:
1. Abordagem escalonada de cuidado psicossocial: Profissionais deveriam dedicar tempo para processar questões emocionais durante consultas, fazer triagem para preocupações psicossociais, oferecer psicoeducação básica, e encaminhar quando apropriado para suporte psicológico especializado. Claro, isso requer treinamento sobre implicações psicossociais da alopecia.
2. Desenvolvimento de intervenções psicológicas personalizadas: Terapia cognitivo-comportamental provavelmente é eficaz para ansiedade de aparência. Intervenções de terceira onda (mindfulness, aceitação) podem melhorar qualidade de vida e reduzir sofrimento. Mas a PERSONALIZAÇÃO é chave – nem todo mundo vive alopecia da mesma forma.
3. Atenção a “ameaças contextuais”: Estigmatização, comportamentos socialmente conformes, interseccionalidade precisam ser abordados. Isso significa ir além do indivíduo e considerar fatores socioculturais.
4. Envolvimento de experts-by-experience: Pessoas vivendo com alopecia de diversos backgrounds devem ajudar a moldar serviços e intervenções.
Reflexão Final: A Pessoa Além do Folículo
Confesso que, mesmo depois de décadas tratando calvície, este estudo me fez pausar e refletir. Quantas vezes entro no “piloto automático” da consulta: tricoscopia, classificação de Norwood ou Ludwig, discussão de minoxidil e finasterida, próxima consulta em 3 meses?
Quantas vezes realmente pergunto: “Como isso está afetando sua vida? Como você se sente quando olha no espelho? Isso mudou como você se vê? Como as pessoas ao seu redor reagiram? O que você gostaria que fosse diferente?”
Este estudo nos lembra que por trás de cada folículo miniaturizado existe uma pessoa navegando identidade, autoimagem, pressões sociais, relacionamentos, esperanças e medos. E que nosso papel, como profissionais de saúde capilar, transcende prescrever medicamentos.
Precisamos criar espaços onde essas pessoas se sintam OUVIDAS, VALIDADAS, COMPREENDIDAS. Onde possam explorar não apenas “como fazer o cabelo crescer” mas “como viver bem apesar da alopecia – ou até mesmo, eventualmente, em paz com ela.”
Porque no final das contas, qualidade de vida não é medida apenas em fios por centímetro quadrado. É medida em confiança restaurada, em identidade reconciliada, em sofrimento aliviado, em vida retomada.
E isso, nenhum medicamento sozinho pode oferecer.
Referência:
Hurrell Z, Vasiliou VS, Scaife K, Thompson AR. The lived experience of alopecia: A systematic review and thematic synthesis of qualitative evidence. British Journal of Health Psychology. 2026. doi: 10.1111/bjhp.12753. Disponível em: https://bpspsychub.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/bjhp.12753


