A dermatologia, muitas vezes, foca no tratamento clínico das condições cutâneas, mas o impacto psicológico e emocional dessas doenças permanece subestimado. Este estudo busca compreender a relação entre doenças de pele e o bem-estar subjetivo dos pacientes, analisando fatores como felicidade, afetos positivos e negativos e satisfação com a vida. A pesquisa comparou pacientes dermatológicos com indivíduos saudáveis e outros grupos com doenças crônicas, incluindo HIV e doenças inflamatórias intestinais.
Os resultados indicaram que os pacientes dermatológicos apresentaram menores níveis de felicidade e afetos positivos em comparação aos controles saudáveis. Entre os diagnosticados, aqueles com psoríase e eczema atópico relataram os piores índices de bem-estar. Curiosamente, pacientes com câncer de pele relataram níveis mais altos de satisfação com a vida, possivelmente devido a uma percepção de resolução após o tratamento ou à reavaliação das prioridades da vida diante da doença. Além disso, a severidade da doença influenciou diretamente o impacto emocional, especialmente em pacientes com psoríase.
O estudo ressalta a necessidade de um olhar mais amplo para o tratamento das doenças dermatológicas, incorporando estratégias que promovam o bem-estar emocional e não apenas a recuperação clínica da pele. A ciência já demonstrou que emoções positivas podem impactar diretamente a resposta imunológica, a regeneração celular e até mesmo a percepção da dor. Portanto, incorporar abordagens psicossociais pode não apenas melhorar a qualidade de vida dos pacientes, mas também potencializar os resultados clínicos.
Diante dessas conclusões, abre-se uma discussão fundamental: a medicina ainda subestima o impacto das emoções nos tratamentos? A psiconeuroimunologia já sugere que fatores emocionais desempenham um papel crucial na evolução das doenças cutâneas, mas a prática clínica continua priorizando abordagens estritamente medicamentosas. O estudo reforça a importância de considerar o bem-estar dos pacientes como parte integrante da terapia dermatológica.
Além disso, os achados indicam que pacientes com doenças inflamatórias intestinais apresentaram ainda menores níveis de felicidade que os dermatológicos, sugerindo uma sobreposição entre a saúde intestinal e a saúde mental, algo já amplamente discutido na literatura científica. Essa interconexão reforça a importância de um olhar integrativo sobre a saúde, que considere a interação entre diferentes sistemas do corpo.
Este estudo deixa claro que a dermatologia não pode mais ignorar a dimensão emocional das doenças cutâneas. Cabe à medicina do futuro integrar intervenções que abordem não apenas a pele, mas a experiência emocional do paciente como um todo.
Schuster B, Ziehfreund S, Albrecht H, Spinner CD, Biedermann T, Peifer C, Zink A. Happiness in dermatology: a holistic evaluation of the mental burden of skin diseases. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2020;34(7):1331-1339. doi:10.1111/jdv.16146