A regulação do crescimento capilar é um fenômeno multifatorial que envolve interações entre fatores genéticos, epigenéticos e hormonais. O artigo revisado aprofunda a relação entre os hormônios sexuais e os distúrbios capilares, com um enfoque especial na conversão de hormônios dentro dos folículos pilosos e no impacto da epigenética sobre a progressão da alopecia. Essa abordagem oferece um panorama abrangente sobre como os hormônios sexuais podem paradoxalmente estimular ou inibir o crescimento capilar, dependendo do contexto fisiológico e das regiões do corpo.
Os hormônios sexuais, particularmente os andrógenos, desempenham um papel central na regulação do ciclo capilar. A conversão da testosterona em di-hidrotestosterona (DHT) pela enzima 5α-redutase no folículo piloso é um dos principais mecanismos envolvidos na miniaturização capilar observada na alopecia androgenética (AGA). O artigo destaca que a distribuição da enzima 5α-redutase não é homogênea no couro cabeludo. Regiões frontal e superior possuem maior atividade enzimática, o que explica a perda progressiva de fios nessas áreas. Além disso, a expressão de receptores androgênicos na papila dérmica é determinante para a resposta do folículo aos hormônios sexuais. A estimulação excessiva por DHT promove a ativação de fatores pró-inflamatórios, como o TGF-β1 e a interleucina-6, que contribuem para o encurtamento da fase anágena e a miniaturização progressiva do folículo.
Entretanto, a ação dos hormônios sexuais na fisiologia capilar é paradoxal. Enquanto o DHT promove a miniaturização dos folículos do couro cabeludo, ele também estimula o crescimento de pelos em áreas como a barba e o tórax. Esse efeito é atribuído a fatores intrínsecos do próprio folículo, que determinam a resposta diferencial aos andrógenos em diferentes áreas do corpo. O artigo também enfatiza a importância do estrogênio na regulação capilar, especialmente no contexto da alopecia feminina. Embora sua função ainda seja debatida, a deficiência estrogênica pós-menopausa está associada a um aumento na queda capilar, sugerindo um papel protetor do hormônio no ciclo capilar.
Além da conversão hormonal nos folículos, a epigenética surge como uma área promissora para explicar a predisposição genética à alopecia. O artigo destaca que a regulação epigenética pode modular a expressão de genes relacionados à miniaturização capilar, independentemente de mutações genéticas fixas. Estudos com gêmeos monozigóticos demonstraram que, apesar de compartilharem o mesmo DNA, diferenças na expressão de genes ligados à alopecia podem surgir ao longo da vida devido a modificações epigenéticas. Essas modificações incluem a metilação do DNA e a modificação de histonas, que podem influenciar a sensibilidade dos folículos aos hormônios sexuais e à inflamação local. Esse achado reforça a necessidade de pesquisas mais aprofundadas sobre o impacto ambiental e comportamental na progressão da calvície.
Dessa forma, o estudo evidencia que a alopecia androgenética não é exclusivamente um problema hormonal, mas sim um fenômeno multifatorial que combina predisposição genética, epigenética e fatores ambientais. Além disso, o artigo reforça a importância de se explorar novas abordagens terapêuticas que possam modular a resposta hormonal e epigenética dos folículos pilosos. A pesquisa em terapias baseadas na epigenética, como inibidores de enzimas modificadoras de histonas, pode oferecer novas estratégias para o controle da alopecia no futuro.
Por fim, é fundamental destacar que, apesar dos avanços no conhecimento sobre a alopecia, muitas questões ainda permanecem sem resposta. O impacto da nutrição, do estresse e da exposição ambiental na modulação epigenética dos folículos é um campo em aberto. Além disso, a escassez de estudos sobre tratamentos naturais e suas possíveis interações hormonais e epigenéticas revela um viés científico importante. O desinteresse em estudar esses tratamentos pode estar ligado à falta de financiamento ou ao predomínio de pesquisas voltadas para fármacos convencionais. Para uma abordagem mais ampla e justa, é essencial incentivar estudos rigorosos sobre a eficácia e segurança de terapias naturais, sem descartar seu potencial antes de uma avaliação aprofundada.
A ciência capilar está em constante evolução, e compreender a interação entre hormônios sexuais, epigenética e queda capilar pode abrir caminho para tratamentos mais personalizados e eficazes. Profissionais da saúde capilar devem estar atentos a essas novas descobertas e buscar integrar conhecimentos de diferentes áreas para oferecer aos pacientes abordagens terapêuticas baseadas em evidências e com um olhar inovador para o futuro.
Referência:
Inoue K, Aoi N, Suga H, et al. Current Understanding and Treatment of Sex Hormone-Related Hair Loss: Role of Follicular Conversion and Epigenetics. J Invest Dermatol. 2024;144(5):1132-1145. doi:10.1016/j.jid.2024.01.006.