
As obras Ansiedade (Angst), Desespero (Despair) e O Grito (The Scream), de Edvard Munch, parecem capturar algo que vai além da simples representação do medo e da angústia. Elas traduzem o que Jung chamaria de um confronto com a sombra, aquela parte oculta de nós mesmos onde se escondem nossas inseguranças, medos e dores mais profundas. E curiosamente, os cabelos—tão carregados de simbolismo ao longo da história—também podem ser uma manifestação desse embate interno.

O cabelo sempre foi um reflexo da vitalidade e da identidade. Mas e quando ele começa a cair? Quando perde seu brilho, sua força? Assim como as figuras distorcidas de Munch parecem gritar em desespero, um cabelo que se desprende sem controle pode ser a materialização silenciosa de um grito interno, um eco das tensões emocionais que se acumulam no inconsciente. A psicologia analítica nos ensina que sintomas físicos podem ser expressões simbólicas de processos psíquicos, e a saúde capilar não está imune a essa dinâmica.
Em Ansiedade, as expressões rígidas e os olhares vazios remetem à preocupação incessante, ao peso da ansiedade. O estresse crônico, na linguagem do corpo, pode se traduzir em queda de cabelo, em fios que se tornam frágeis como se carregassem o esgotamento emocional. Já em Despair, a figura solitária sugere uma entrega ao desânimo, uma espécie de abandono interno. A depressão muitas vezes se manifesta de maneira sutil no corpo—no descuido com a aparência, na perda da vitalidade dos fios, no afinamento progressivo que acompanha o esgotamento psíquico.
Mas é em O Grito (The Scream) que o descontrole atinge seu ápice. A imagem quase líquida, vibrante e inquietante transmite um estado de ruptura, um momento em que a barreira entre o mundo interno e externo se dissolve. A alopecia areata, por exemplo, é um fenômeno que muitas vezes ocorre após um choque emocional profundo, um trauma que desencadeia uma resposta autoimune. É como se o corpo, incapaz de processar a dor de outra forma, respondesse eliminando parte de si mesmo—assim como o grito da figura no quadro parece desintegrar a realidade ao seu redor.

Jung diria que esse processo de perda e transformação pode ser uma chamada do inconsciente, um convite a olhar para dentro e confrontar o que tem sido reprimido. Afinal, o cabelo não é apenas um ornamento; ele é um símbolo de identidade, de poder pessoal e, em muitas culturas, de conexão espiritual. Sua deterioração pode ser um lembrete de que algo dentro de nós clama por atenção.
The Scream – O Grito
O que Munch expressa em seus quadros, nós muitas vezes expressamos no corpo sem perceber. A psicologia analítica nos convida a observar esses sinais como parte de um diálogo entre a mente e a matéria, entre o visível e o invisível. Assim como os traços distorcidos das pinturas evocam um desconforto profundo, nossos cabelos podem ser a superfície onde se projetam as tempestades emocionais que ainda não aprendemos a nomear.
É justamente nesse ponto que a atuação de um psicólogo no tratamento tricológico pode fazer toda a diferença. Quando as emoções se tornam um obstáculo para a recuperação, quando a ansiedade e a autoimagem fragilizada dificultam a melhora, um olhar psicológico pode ressignificar a experiência e ajudar o paciente a compreender a raiz emocional do problema. O cabelo, que tantas vezes se torna um espelho do sofrimento interno, pode ser tratado não apenas com fórmulas e procedimentos, mas também com acolhimento, escuta e reconstrução do equilíbrio psíquico. Porque, no fim, restaurar a saúde capilar não é apenas recuperar fios—é restaurar a identidade, a confiança e a qualidade de vida daquele que se vê diante do espelho.