
Entre os dias 2 e 4 de outubro, participei, em Varsóvia, da XVIII Conferência da Sociedade Polonesa de Tricologia (PTS), um encontro que reuniu profissionais de diferentes países para discutir questões relacionadas à saúde capilar, às doenças do couro cabeludo, às novas tecnologias e aos desafios que encontramos diariamente na prática da tricologia.
O que mais me chamou a atenção na programação foi a diversidade dos assuntos. Tivemos apresentações sobre biologia do folículo piloso, diagnóstico diferencial das alopecias, alterações hormonais e metabólicas, microbioma, tricologia oncológica, farmacologia, procedimentos cosméticos e inteligência artificial.
Essa diversidade, para mim, é especialmente importante porque reforça algo que venho defendendo há muitos anos: não podemos compreender a saúde capilar observando apenas o cabelo. O folículo piloso faz parte de um organismo complexo, responde a alterações sistêmicas e mantém relações permanentes com o ambiente cutâneo, o sistema imunológico, o metabolismo e o sistema endócrino.
Quero compartilhar um panorama dos principais assuntos discutidos e, sobretudo, explicar por que considero esses temas relevantes para quem trabalha com tricologia.
Sexta-feira, 2 de outubro — O cuidado individualizado e a inteligência artificial
A programação começou com discussões sobre a utilização da massagem facial na prática tricológica e sobre as possibilidades da inteligência artificial no consultório.
A apresentação de Mateusz Staudt, fisioterapeuta e terapeuta de tecidos moles, trouxe a importância de considerar a musculatura craniofacial, a mobilidade dos tecidos e as técnicas manuais como recursos complementares ao cuidado.
Considero esse assunto interessante porque muitas vezes nos concentramos exclusivamente nos procedimentos realizados sobre o couro cabeludo e deixamos de considerar aspectos relacionados ao conforto, à sensibilidade e à percepção corporal do paciente. Técnicas manuais podem contribuir para relaxamento e bem-estar, embora seja necessário diferenciar esses benefícios de efeitos terapêuticos comprovados sobre o crescimento capilar.
Já a discussão sobre inteligência artificial trouxe uma perspectiva completamente diferente.
Estamos entrando em um período no qual ferramentas digitais poderão contribuir significativamente para a documentação clínica, a comparação longitudinal de imagens, a análise tricoscópica e a organização das informações dos pacientes.
Entretanto, existe uma diferença importante entre utilizar inteligência artificial como ferramenta de apoio e delegar a ela decisões clínicas. A qualidade das informações utilizadas para desenvolver esses sistemas, sua capacidade de reconhecer diferentes características capilares e a validação dos resultados são aspectos que precisam ser considerados.
Acredito que a inteligência artificial terá um papel cada vez maior na tricologia, mas seu valor dependerá da capacidade do profissional de utilizá-la com senso crítico.
Sábado, 3 de outubro — Diagnóstico, biologia folicular e tratamentos
O sábado reuniu uma programação particularmente rica, com discussões que passaram pelo diagnóstico diferencial, pela fisiologia folicular e pelas possibilidades terapêuticas.
Um dos assuntos foi a DUPA, ou alopecia difusa não padronizada, abordada por Alicja Gondek-Urtnowska.
A DUPA merece atenção porque nem todas as alopecias seguem os padrões clássicos de distribuição. A presença de miniaturização difusa, inclusive nas regiões habitualmente consideradas áreas doadoras, modifica a interpretação diagnóstica e pode comprometer a indicação de procedimentos como o transplante capilar.
Para quem trabalha com avaliação capilar, reconhecer esses padrões é fundamental. A tricoscopia não deve se limitar às regiões em que a rarefação é mais evidente. Precisamos compreender a distribuição das alterações e distinguir miniaturização folicular de outras causas de redução da densidade.
David Kingsley trouxe a discussão sobre a participação do tricologista em equipes multidisciplinares.
Esse é um tema que considero essencial para o amadurecimento da profissão. A tricologia precisa estabelecer relações cada vez mais próximas com a dermatologia, a endocrinologia, a nutrição e outras áreas da saúde.
O tricologista pode desempenhar um papel importante na documentação, no acompanhamento, na orientação dos cuidados e na identificação de alterações que mereçam investigação médica. Entretanto, essa contribuição depende do reconhecimento das competências e dos limites de atuação de cada profissional.
Outro assunto de grande interesse foi o colágeno e a matriz extracelular do folículo piloso, apresentado por Aleksandra Strobel-Pytel.
Esse tema se aproxima bastante de uma das áreas que mais têm despertado meu interesse científico nos últimos anos: o microambiente folicular e os processos de remodelação tecidual.
O folículo piloso não funciona isoladamente. Sua atividade depende de interações entre células epiteliais, células mesenquimais, vasos sanguíneos, componentes da matriz extracelular e diferentes mediadores bioquímicos.
Quando estudamos a matriz extracelular, começamos a compreender melhor a importância das propriedades estruturais e mecânicas do tecido para a atividade folicular.
Isso também nos leva às discussões sobre inflamação crônica, remodelação da matriz e fibrose perifolicular, processos que podem participar da evolução de determinadas alopecias.
É importante, porém, compreender que estimular a produção de colágeno não significa necessariamente melhorar a saúde folicular. Dependendo do contexto, o acúmulo desorganizado de matriz extracelular pode ser prejudicial.
A apresentação de Shirley McDonald sobre diversidade étnica e interpretação da tricoscopia também merece destaque.
Durante muito tempo, parte significativa dos referenciais diagnósticos utilizados na dermatologia e na tricologia foi construída a partir de populações pouco diversificadas.
Sabemos, entretanto, que as características da haste capilar, os padrões de implantação, os graus de curvatura e a pigmentação cutânea podem modificar a aparência dos achados tricoscópicos.
Reconhecer essas diferenças é indispensável para evitar interpretações equivocadas e melhorar a avaliação de pacientes com diferentes tipos de cabelo e fototipos.
A programação também contemplou questões relacionadas à saúde hormonal feminina.
Ewelina Grajlich abordou as diferenças entre amenorreia hipotalâmica funcional e síndrome dos ovários policísticos, enquanto Marcin Piwecki discutiu a alopecia androgenética feminina.
Esses assuntos mostram como manifestações capilares semelhantes podem ter origens diferentes.
Alterações menstruais, hiperandrogenismo, baixa disponibilidade energética, mudanças metabólicas e predisposição genética precisam ser considerados durante a investigação das queixas capilares.
A alopecia de padrão feminino, por exemplo, não pode ser interpretada exclusivamente como consequência de alterações hormonais. Trata-se de uma condição multifatorial, cuja compreensão exige atenção à genética, à miniaturização folicular e a possíveis fatores associados.
Tive também a oportunidade de apresentar o tema “Tricologia moderna sem ilusões — terapias com eficácia comprovada e tendências passageiras”.
Minha proposta foi chamar a atenção para uma questão que considero particularmente importante: a necessidade de diferenciar inovação científica de novidade comercial.
A tricologia tem recebido uma quantidade crescente de produtos, ingredientes, equipamentos e procedimentos que prometem resultados expressivos. Alguns representam avanços reais; outros apresentam apenas mecanismos de ação teoricamente interessantes, sem demonstração clínica consistente.
Precisamos lembrar que resultados obtidos em culturas celulares ou modelos experimentais não representam, necessariamente, benefícios comprovados em seres humanos.
O entusiasmo com novas possibilidades é importante, mas não pode substituir a análise crítica das evidências.
Outro tema abordado foi a melatonina, apresentada por Edyta Pawluś.
Embora seja amplamente conhecida por sua participação na regulação dos ritmos circadianos, a melatonina também apresenta atividades antioxidantes e participa de mecanismos de sinalização celular investigados na biologia folicular.
Existem estudos sobre sua aplicação tópica na saúde capilar, mas ainda precisamos de pesquisas clínicas mais robustas para estabelecer com maior segurança seu papel terapêutico.
A programação avançou também para os cuidados capilares durante a gestação, lactação e após tratamentos oncológicos, além de uma discussão específica sobre tricologia oncológica, conduzida por Arwena Tarasiuk-Wilczewska.
Esses temas são especialmente relevantes porque envolvem pacientes em situações de maior vulnerabilidade.
No período pós-parto, por exemplo, o eflúvio telógeno é frequente, mas não devemos atribuir automaticamente toda queda capilar às mudanças hormonais. Alterações tireoidianas, deficiências nutricionais e outras condições podem coexistir.
Na oncologia, a perda capilar ultrapassa a dimensão estética. Ela pode afetar profundamente a autoimagem, a identidade e a qualidade de vida.
O acompanhamento precisa considerar a segurança das intervenções, as particularidades dos tratamentos antineoplásicos e a integração com a equipe médica responsável.
Também foram discutidas alternativas cirúrgicas, como o transplante de pelos corporais em pacientes com área doadora limitada, tema apresentado por Edyta Jakubik.
Embora essa possibilidade amplie os recursos da restauração capilar, as diferenças entre os pelos corporais e os cabelos do couro cabeludo exigem critérios rigorosos de indicação.
A utilização da luz ultravioleta na tricoscopia, abordada por Weronika Stępnik, trouxe outra perspectiva interessante: o desenvolvimento de recursos capazes de revelar características pouco evidentes sob iluminação convencional.
Entretanto, novas modalidades de imagem precisam ser validadas antes que seus achados sejam considerados marcadores diagnósticos específicos.
Por fim, Joanna Rutkowska discutiu as deficiências nutricionais e os desafios de sua identificação laboratorial.
Esse é um assunto que merece atenção constante. A saúde folicular depende de adequada disponibilidade energética, proteínas e micronutrientes, mas a interpretação dos exames não pode ser feita de maneira automática.
Um resultado dentro do intervalo de referência precisa ser analisado em seu contexto clínico. Da mesma forma, valores próximos ao limite inferior não justificam, isoladamente, suplementações indiscriminadas.
A avaliação nutricional precisa ser individualizada e fundamentada em critérios clínicos e laboratoriais consistentes.
Domingo, 4 de outubro — Metabolismo, microbioma, envelhecimento e saúde sistêmica
O domingo ampliou ainda mais a perspectiva interdisciplinar do congresso.
Uma das apresentações abordou a reconstrução e os cuidados da haste capilar danificada, tema discutido por Jolanta Madaj.
Esse assunto é particularmente importante para diferenciar os tratamentos cosméticos dos tratamentos destinados às alterações biológicas do folículo piloso.
A haste capilar é uma estrutura queratinizada, sem atividade celular e sem capacidade de regeneração biológica.
Produtos cosméticos podem melhorar propriedades mecânicas, reduzir atrito, aumentar a penteabilidade e modificar a aparência dos fios, mas isso não significa reconstrução biológica do cabelo.
Compreender essa diferença é fundamental para orientar corretamente os pacientes e evitar promessas incompatíveis com a natureza da estrutura capilar.
Natalia Lenarczyk abordou a relação entre doenças do couro cabeludo e alterações da haste.
Processos inflamatórios, descamação, prurido e alterações da barreira cutânea podem comprometer o conforto do paciente e contribuir para danos secundários aos fios.
É necessário reconhecer quando uma alteração aparentemente cosmética está associada a uma condição dermatológica que exige investigação e tratamento específicos.
O congresso também abriu espaço para o desenvolvimento empresarial da tricologia, com apresentações relacionadas à criação de marcas próprias e à gestão profissional.
Considero importante que esses assuntos façam parte da programação, porque o crescimento do setor precisa ser acompanhado por responsabilidade técnica, conhecimento regulatório e compromisso com a qualidade dos serviços e produtos oferecidos.
Entre os temas médicos, tivemos discussões sobre alterações adrenais, doenças hepáticas metabólicas e saúde capilar.
Marcin Gierach abordou as repercussões das alterações das glândulas adrenais, enquanto Paweł Rajewski discutiu a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, atualmente denominada MASLD.
A presença desses assuntos em um congresso de tricologia é significativa.
Cada vez mais precisamos compreender que alterações capilares podem coexistir com distúrbios endócrinos e metabólicos importantes.
Isso não significa estabelecer relações causais onde ainda não existem evidências suficientes, mas reconhecer que o cabelo pode fazer parte de um conjunto mais amplo de manifestações clínicas.
Outro tema que considero especialmente interessante foi o microbioma do couro cabeludo, apresentado por Piotr Sobolewski.
O couro cabeludo abriga comunidades complexas de bactérias e fungos que interagem continuamente com a barreira cutânea e com o sistema imunológico.
O estudo dessas comunidades tem contribuído para compreender melhor condições como caspa e dermatite seborreica, além de levantar novas hipóteses sobre sua participação em outros processos inflamatórios.
Entretanto, ainda precisamos distinguir alterações do microbioma que participam diretamente da fisiopatologia de determinadas doenças daquelas que surgem como consequência das mudanças no ambiente cutâneo.
A simples identificação de uma alteração microbiana não significa que sua correção produzirá necessariamente melhora clínica.
Waldemar Placek trouxe a discussão sobre tricologia, longevidade e eixo intestino–pele–folículo piloso.
Esse tema dialoga com uma das grandes tendências atuais da pesquisa biomédica: compreender o envelhecimento como um processo sistêmico, influenciado por alterações metabólicas, imunológicas e celulares.
No folículo piloso, o envelhecimento envolve modificações na atividade das células-tronco, na pigmentação, no microambiente tecidual e na capacidade de manutenção dos ciclos de crescimento.
A relação entre microbiota intestinal, inflamação sistêmica e saúde cutânea também tem despertado interesse crescente.
Ainda existem muitas perguntas sem resposta, especialmente sobre a possibilidade de intervenções direcionadas ao intestino produzirem benefícios capilares específicos. Mesmo assim, trata-se de uma área de investigação que merece acompanhamento.
A saúde capilar feminina voltou à programação com a discussão sobre perimenopausa, conduzida por Dawid Serafin.
A transição menopausal pode estar acompanhada de alterações na densidade, na textura e no ciclo capilar, mas nem toda manifestação deve ser atribuída exclusivamente à redução dos estrogênios.
Predisposição genética, alterações metabólicas, doenças associadas e fatores nutricionais precisam ser considerados.
Outro assunto importante foi a tricodinia, apresentado por Katarzyna Nidzińska.
Pacientes com tricodinia podem relatar dor, ardor, sensibilidade ou desconforto no couro cabeludo, algumas vezes sem alterações objetivas proporcionais à intensidade dos sintomas.
Essa condição nos lembra que a avaliação clínica não deve se limitar ao que conseguimos observar nas imagens.
A experiência subjetiva do paciente, os mecanismos neurossensoriais e as possíveis relações com processos inflamatórios precisam ser considerados.
O congresso também discutiu os efeitos capilares de medicamentos utilizados no tratamento de doenças neurológicas, incluindo anticonvulsivantes e terapias para enxaqueca.
Conhecer as possíveis repercussões farmacológicas sobre o ciclo capilar é indispensável para o diagnóstico diferencial dos eflúvios e de outras alterações dos fios.
Finalmente, tivemos uma discussão muito atual sobre os tratamentos farmacológicos da obesidade e seus efeitos sobre a saúde capilar, apresentada por Paweł Węgrzyn.
A expansão do uso de medicamentos que atuam sobre as vias do GLP-1 e GIP trouxe novas questões para a prática clínica.
A perda ponderal rápida, especialmente quando acompanhada de redução importante da ingestão calórica ou proteica, pode favorecer o desenvolvimento de eflúvio telógeno.
Ainda precisamos compreender melhor a contribuição de possíveis efeitos farmacológicos diretos, separando-os das consequências metabólicas e nutricionais do emagrecimento.
Esse é um tema que certamente continuará presente nas discussões científicas dos próximos anos.
O que levo da PTS 2026
Ao observar o conjunto dos assuntos apresentados, considero que a principal mensagem da conferência foi a necessidade de ampliar continuamente nossa compreensão sobre a saúde capilar.
A tricologia contemporânea não pode se limitar ao conhecimento de produtos, técnicas de aplicação ou equipamentos.
Precisamos compreender a biologia do folículo piloso, reconhecer padrões de doença, interpretar criticamente novas pesquisas e identificar situações em que as manifestações capilares refletem alterações sistêmicas.
Também precisamos reconhecer a importância da cosmetologia. O cuidado da haste capilar, o conforto do couro cabeludo e a orientação sobre hábitos cotidianos são partes legítimas e importantes do acompanhamento, desde que não sejam confundidos com o tratamento de doenças que exigem intervenções médicas.
A inteligência artificial, as novas tecnologias de imagem e os estudos sobre microbioma, matriz extracelular e envelhecimento representam caminhos promissores. Mas o entusiasmo com essas possibilidades deve caminhar junto com a responsabilidade científica.
Uma questão que considero particularmente importante é a diferença entre aquilo que sabemos, aquilo que estamos começando a compreender e aquilo que ainda permanece no campo das hipóteses.
Essa distinção deveria acompanhar permanentemente a formação e a atuação de qualquer profissional dedicado à saúde capilar.
Volto da PTS 2026 com a percepção de que a tricologia continua ampliando suas fronteiras, aproximando-se cada vez mais de outras áreas do conhecimento e exigindo dos profissionais uma formação mais abrangente.
O futuro da tricologia não dependerá apenas de novos tratamentos. Dependerá, principalmente, de profissionais capazes de compreender melhor as doenças, avaliar criticamente as evidências e oferecer um cuidado verdadeiramente individualizado.
É nesse encontro entre ciência, experiência clínica, cosmetologia e responsabilidade profissional que acredito estar o caminho para uma tricologia cada vez mais madura.


