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Vacuoterapia e Psoríase do Couro Cabeludo: o que a Literatura nos Diz

Sou usuário e entusiasta das técnicas de ventosa para o tratamento de dores musculares — faço sessões regularmente em mim mesmo e reconheço seus benefícios no manejo da tensão miofascial. Justamente por isso, quando comecei a ver colegas indicando vacuoterapia para pacientes com psoríase do couro cabeludo, minha primeira reação não foi de ceticismo automático, mas de curiosidade científica. Resolvi pesquisar o que havia na literatura. O que encontrei me preocupou.

O que é a vacuoterapia e por que ela chegou à tricologia

A vacuoterapia — também chamada de endermosucção, cupping ou terapia de pressão negativa — é uma técnica milenar que utiliza sucção mecânica para criar pressão negativa sobre a pele. Seus usos tradicionais mais reconhecidos incluem o tratamento de dores musculoesqueléticas, tensão miofascial, fibrose cicatricial e melhora da circulação local. Nessas aplicações, a literatura apresenta suporte razoável, e minha experiência pessoal corrobora sua eficácia.

Nos últimos anos, a técnica migrou para o campo da tricologia, onde passou a ser promovida — em muitos casos sem base científica adequada, como recurso para estimular o crescimento capilar, tratar alopecias e, mais recentemente, como “terapia” para psoríase do couro cabeludo. A proposta, à primeira vista, tem certa lógica intuitiva: aumentar o fluxo sanguíneo local beneficiaria o folículo. Mas intuição não é evidência.

O que a biologia da psoríase nos ensina

A psoríase é uma doença inflamatória crônica imunomediada. Seu mecanismo central envolve a ativação de células Th1 e Th17, com liberação maciça de interleucinas, sobretudo IL-17, IL-23 e TNF-α, que desencadeiam uma hiperproliferação queratinocítica. Em outras palavras: trata-se de uma disfunção imunológica sistêmica com manifestação cutânea, não de uma doença causada por déficit circulatório ou obstrução mecânica.

Os tratamentos com evidência nível A para psoríase atuam exatamente sobre esses eixos: corticosteroides tópicos e análogos de vitamina D3 para casos localizados; fototerapia UVB de banda estreita e excimer 308 nm para casos moderados; e imunobiológicos anti-IL-17 (secuquinumabe, ixequizumabe) e anti-IL-23 (guselcumabe, risanquizumabe) para doença grave. Nenhum desses mecanismos é contemplado por sucção mecânica.

O fenômeno de Koebner: quando a técnica se torna o problema

Aqui reside a questão central que me motivou a pesquisar o tema. O fenômeno de Koebner — descrito pelo dermatologista alemão Heinrich Köbner em 1877, é a manifestação isomórfica de lesões psoriásicas em pele previamente sã, após um trauma cutâneo. Em pacientes com psoríase ativa, qualquer forma de agressão mecânica à pele pode desencadear novas placas exatamente no local do trauma.

A vacuoterapia e o cupping geram, por definição, trauma mecânico controlado, é parte do seu mecanismo de ação. E a literatura documentou de forma consistente que esse trauma é suficiente para induzir o fenômeno de Koebner em pacientes psoriáticos.

O primeiro relato foi publicado em 2013 por Yu, Hui e Li no Dermatology Online Journal: um paciente com psoríase submetido a cupping therapy desenvolveu o fenômeno de Koebner nos locais de aplicação das ventosas — o primeiro caso reportado na literatura mundial dessa associação específica.¹

Em 2015, Vender e Vender descreveram no Journal of Cutaneous Medicine and Surgery um caso com biópsia confirmatória. Um homem de 45 anos chegou ao ambulatório com quatro placas circulares incomuns nas costas. A histopatologia revelou lesão inicial de psoríase. Ao ser questionado, o paciente admitiu ter recorrido a cupping therapy tentando tratar sua condição. A conclusão dos autores foi direta: a eficácia da cupping therapy é controversa, e pacientes psoriáticos podem desenvolver psoríase localizada por koebnerização como resultado do procedimento, ao invés de obter os benefícios terapêuticos desejados.²

Em 2019, Sharquie e Al-Jaralla publicaram no Journal of Clinical and Experimental Investigation uma série de 24 pacientes, 16 com psoríase e 6 com líquen plano, todos com doença estável antes do procedimento. Em todos os casos, novas lesões surgiram no local do cupping cerca de duas semanas após a aplicação. A conclusão foi categórica: a técnica não deve ser encorajada em doenças de pele com fenômeno de Koebner positivo, sendo possivelmente contraindicada, pois não há base científica para seu uso nessas condições.³

Em 2020, Ekinci e colaboradores publicaram na Dermatologic Therapy um relato de caso com revisão de literatura que sintetizou o mecanismo: a cupping therapy, empregada como medicina alternativa, torna-se desencadeadora da doença via fenômeno de Koebner.⁴

Finalmente, uma revisão sistemática publicada no MDPI em 2021 analisou 9 estudos sobre cupping em dermatoses, chegando à seguinte conclusão: a cupping therapy foi descrita na maioria das instâncias como resultando em fenômeno de Koebner e piora clínica, sem que qualquer evidência suporte sua segurança ou eficácia em psoríase.⁵

E o crescimento capilar? Há alguma evidência?

Sendo justo com a técnica, convém registrar que há plausibilidade biológica para o uso de pressão negativa como estímulo folicular — não em psoríase, mas em alopecias não inflamatórias. Dois estudos em modelos animais (suíno em 2016, murino em 2024) demonstraram aumento na densidade folicular e angiogênese local após aplicação de pressão negativa controlada.⁶·⁷ Uma revisão de 2025 sobre mecanobiologia capilar reconhece a vacuoterapia como técnica com mecanismos plausíveis — via ativação de células-tronco foliculares e aumento do fluxo vascular, mas ressalta que a pesquisa clínica em humanos é limitada e que mecanismos claros ainda requerem elucidação.⁸

Em resumo: para alopecias não inflamatórias, a vacuoterapia pode ter espaço como terapia coadjuvante experimental, à espera de ensaios clínicos controlados. Para a psoríase, inflamatória, imunomediada, Koebner-positiva, a história é completamente diferente.

Conclusão: critério clínico antes de qualquer técnica

Confesso que escrevo este texto com um misto de responsabilidade e preocupação. Sou usuário das ventosas, entendo sua lógica e respeito sua aplicação nas indicações adequadas. Mas exatamente por conhecer o mecanismo de ação da técnica — que inclui trauma mecânico intencional na pele, é que reconheço o risco no contexto da psoríase.

Promover vacuoterapia para psoríase do couro cabeludo não é apenas aplicar uma técnica sem evidência de benefício. É indicar um procedimento com evidência documentada de malefício, capaz de transformar uma doença estável em uma recidiva ativa, com novas placas surgindo exatamente onde as ventosas foram aplicadas.

O fenômeno de Koebner não é uma curiosidade teórica. É um evento clínico documentado, biopsiado, relatado em múltiplos países, reunido em revisão sistemática. É nosso dever, como profissionais de saúde capilar, conhecer essa literatura e proteger nossos pacientes dela.

Critério clínico não é o oposto de inovação. É o que diferencia uma técnica promissora de um risco desnecessário.

Referências

1. Yu RX, Hui Y, Li CR. Köebner phenomenon induced by cupping therapy in a psoriasis patient. Dermatol Online J. 2013;19:18575. PMID: 24011324.

2. Vender R, Vender R. Paradoxical, cupping-induced localized psoriasis: a Koebner phenomenon. J Cutan Med Surg. 2015;19(4):320-322. doi: 10.2310/7750.2014.14109.

3. Sharquie KE, Al-Jaralla FA. Cupping (Hijama) in skin diseases with positive Koebner’s phenomenon: what is new? J Clin Exp Invest. 2019;10(3).

4. Ekinci AP, Ek T, Gürel MS. Cupping therapy as alternative medicine turns into a trigger of disease via the Koebner phenomenon: a case report of Hijama-induced psoriasis and review of the literature. Dermatol Ther. 2020;33(6):e14264. doi: 10.1111/dth.14264.

5. Papadavid E, Stratigos AJ, Panagiotidis D, et al. Mind-Body Interventions as Alternative and Complementary Therapies for Psoriasis: A Systematic Review of the English Literature. Int J Environ Res Public Health. 2021;18(9):4985. PMC8146919.

6. Keane TJ, Swinehart IT, Badylak SF. The Effects of Negative Pressure by External Tissue Expansion Device on Epithelial Cell Proliferation, Neo-Vascularization and Hair Growth in a Porcine Model. PLOS ONE. 2016. PMID: 27128731.

7. Chang Gung Memorial Hospital. The Effects of Negative Pressure Therapy on Hair Growth of Mouse Models. Tissue Eng Part A. 2024. PMID: 38534878.8. Nam SY, Jain SK, Kurian AG, et al. Hair regeneration: Mechano-activation and related therapeutic approaches. J Regen Biomater. 2025. doi: 10.1177/20417314251362398.

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